Essa chuva que cai, arrastando terra, galhos, quebrando árvores e impedindo que eu abra o portão da garagem com facilidade, é abençoada.
Ontem a pitangueira chegava estar corcunda de tão tensa de calor, hoje, só vendo a felicidade tamanha, está que não se agüenta de hidratada. Essa coisa de você enxergar além dos frutos é uma dádiva, às vezes, a gente só vê a árvore quando ela está coberta de frutas, antes era apenas uma árvore.
Procuro viver em harmonia com a natureza em todos os sentidos, observando as raízes e também os frutos, medindo o curso da água para ver até onde vai dar, copiando as cores das asas das borboletas, cronometrando os passos dos caramujos, olhando no olho do furacão para entender a sua fúria que na verdade, não está furioso, o furacão é um cara que não quer mais viver onde vive e num esforço descomunal, gira o corpo, já que não tem pernas, nem braços, usa o tronco, fazendo um estardalhaço, aí vai segurando numa casa, num carro, numa árvore, numas pessoas e sai andando, e para seu equilíbrio, ele precisa fazer um grande estrago. Entendam, ele estava doido para conhecer outros lugares, respirar novos ares e para isso, teve que ser insensível pois do contrário iria ser sempre um ventinho triste e amuado num canto.
Às vezes, para crescer, evoluir, a gente destrói muita coisa, uma família, uma amizade, um emprego, até mesmo a própria vida, isso tudo porque a alma tem que caminhar. E se você consegue enxergar as necessidades de todas as coisas, seus fundamentos e opções, você estará em harmonia com tudo isso e é aí, que está a sua grandeza. A sua confissão perante a vida vai ser uma só: eu vivi. E só.
A chuva, quando vem, por vezes, traz muitas confusões mas dá para a terra uma reserva de vida e para todos nós, seja de que forma for, uma certeza, a natureza é quem manda. Somos apenas colaboradores e admiradores de uma orquestra com instrumentos sem par.
Harmonia e paz.